{"id":6027,"date":"2024-11-06T09:16:08","date_gmt":"2024-11-06T12:16:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.professorvladmirsilveira.com.br\/?p=6027"},"modified":"2024-11-06T09:16:08","modified_gmt":"2024-11-06T12:16:08","slug":"como-a-mudanca-do-clima-pode-afetar-a-vida-microscopica-em-lagoas-do-pantanal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/2024\/11\/06\/como-a-mudanca-do-clima-pode-afetar-a-vida-microscopica-em-lagoas-do-pantanal\/","title":{"rendered":"Como a mudan\u00e7a do clima pode afetar a vida microsc\u00f3pica em lagoas do Pantanal"},"content":{"rendered":"<p>Nas lagoas de \u00e1gua salgada do Pantanal, conhecidas popularmente como salinas, entre os poucos seres vivos que sobrevivem \u00e0 alta alcalinidade da \u00e1gua est\u00e3o os microrganismos, em especial as microsc\u00f3picas cianobact\u00e9rias que se multiplicam na superf\u00edcie formando uma espessa camada verde \u2013 a chamada flora\u00e7\u00e3o. Segundo estudo publicado em julho na revista <em>Acta Limnologica Brasiliensia,\u00a0<\/em>o aumento de temperatura em testes de laborat\u00f3rio diminuiu a reprodu\u00e7\u00e3o das duas principais esp\u00e9cies que vivem na regi\u00e3o,\u00a0<em>Anabaenopsis elenkinii\u00a0<\/em>e\u00a0<em>Limnospira platensis<\/em>.<\/p>\n<p><strong>\u201c<\/strong>Caso o mesmo efeito ocorra na natureza, o aumento de temperatura no contexto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas poder\u00e1 inibir a reprodu\u00e7\u00e3o das cianobact\u00e9rias e a sua flora\u00e7\u00e3o\u201d, deduz o bi\u00f3logo Kleber Santos, do Centro Universit\u00e1rio Leonardo da Vinci (Uniasselvi), em Santa Catarina, primeiro autor do estudo. Santos coletou 27 amostras de \u00e1gua de oito salinas da Nhecol\u00e2ndia, regi\u00e3o do Pantanal quase do tamanho do estado de Alagoas, com cerca de 26 mil quil\u00f4metros quadrados (km<sup>2<\/sup>), no munic\u00edpio de Corumb\u00e1, Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>Nos testes em laborat\u00f3rio, a velocidade de reprodu\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>A. elenkinii\u00a0<\/em>atingiu seu m\u00e1ximo a 25 graus Celsius (<sup>o<\/sup>C), caiu pela metade a 30\u00a0<sup>o<\/sup>C e praticamente parou a 35\u00a0<sup>o<\/sup>C, enquanto\u00a0<em>L. platensis\u00a0<\/em>quase n\u00e3o se reproduziu mais a partir de 30\u00a0<sup>o<\/sup>C. As duas esp\u00e9cies formaram estruturas chamadas acinetos ou hormog\u00f4nios, que resistem a condi\u00e7\u00f5es adversas \u2013 por exemplo, em per\u00edodos de seca intensa \u2013 e brotam apenas quando elas se tornam mais favor\u00e1veis.<\/p>\n<p>O resultado surpreendeu Santos. \u201cH\u00e1 poucos estudos desse tipo feitos com cianobact\u00e9rias de regi\u00f5es tropicais e, geralmente, o aumento de temperatura estimula a sua reprodu\u00e7\u00e3o\u201d, diz ele. O pesquisador sugere que diferen\u00e7as gen\u00e9ticas da cepa do Pantanal podem influenciar esse comportamento, mas ressalta que mais estudos s\u00e3o necess\u00e1rios para entender suas causas.<\/p>\n<p>A microbiologista Simone Cotta, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de S\u00e3o Paulo (Esalq-USP), em Piracicaba, considera improv\u00e1vel que o aumento de temperatura diminua as flora\u00e7\u00f5es. Ela observa que h\u00e1 um consenso entre pesquisadores de que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tendem a promover a multiplica\u00e7\u00e3o de cianobact\u00e9rias e ressalta que experimentos de laborat\u00f3rio, feitos em condi\u00e7\u00f5es controladas, n\u00e3o explicam o que acontece na natureza. \u201cA ocorr\u00eancia de flora\u00e7\u00f5es \u00e9 um fen\u00f4meno multifatorial que ainda n\u00e3o \u00e9 plenamente compreendido\u201d, ressalta Cotta. Entre os efeitos j\u00e1 documentados em uma diversidade de estudos est\u00e1 a presen\u00e7a de nutrientes, como nitrog\u00eanio e f\u00f3sforo, que quando em excesso estimulam a flora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Terra de lagoas<br \/>\n<\/strong>Na Nhecol\u00e2ndia, cujo nome homenageia um fazendeiro conhecido como Nheco, que viveu na regi\u00e3o no s\u00e9culo XIX, existem cerca de 1.500 salinas \u2013 ou lagoas alcalinas \u2013 de um total de cerca de 10 mil lagoas, a maioria de \u00e1gua doce. \u00c9 o local com a maior extens\u00e3o desses corpos d\u2019\u00e1gua do mundo, com cerca de um a cada 3 hectares (ha), \u00e1rea equivalente a tr\u00eas campos de futebol.<\/p>\n<p>Com uma m\u00e9dia de 2 metros (m) de profundidade e 1 km de di\u00e2metro, as salinas s\u00e3o abastecidas pelas \u00e1guas das chuvas e t\u00eam contato limitado com o len\u00e7ol fre\u00e1tico, ficam um pouco mais elevadas que as lagoas de \u00e1gua doce e s\u00e3o rodeadas por montes de 3 a 5 m de altura cobertos por vegeta\u00e7\u00e3o. Por isso, ficam isoladas do fluxo de \u00e1gua doce que alaga a plan\u00edcie.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, seu fundo \u00e9 formado por uma camada endurecida de solo, que n\u00e3o deixa a \u00e1gua doce se infiltrar. A evapora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua parada favorece o ac\u00famulo de sais como s\u00f3dio, pot\u00e1ssio, magn\u00e9sio e c\u00e1lcio, que aumentam a alcalinidade do ambiente \u2013 por n\u00e3o conter o sal de cozinha (cloreto de s\u00f3dio) a \u00e1gua n\u00e3o tem sabor salgado. Como elas s\u00e3o as \u00faltimas lagoas a secar em per\u00edodos de estiagem prolongada, s\u00e3o importantes para a sobreviv\u00eancia dos animais, servindo de fonte de \u00e1gua e sais minerais.<\/p>\n<p>Santos observou que\u00a0<em>A. elenkinii,\u00a0<\/em>de flora\u00e7\u00e3o verde, \u00e9 a mais comum e a primeira a colonizar esses lagos, onde come\u00e7a a fixar nitrog\u00eanio do ar. Quando o n\u00edvel de nitrog\u00eanio dissolvido na \u00e1gua fica muito alto, ela \u00e9 substitu\u00edda por\u00a0<em>Limnospira platensis,\u00a0<\/em>de flora\u00e7\u00e3o verde-azulada, antes chamada\u00a0<em>Arthrospira platensis \u2013\u00a0<\/em>a esp\u00e9cie foi renomeada por Santos em 2023, em estudo publicado na revista\u00a0<em>Frontiers in Environmental Science,\u00a0<\/em>ao verificar que o organismo tinha mais afinidade com outro g\u00eanero<em>.\u00a0<\/em>\u201c\u00c9 fundamental identificar esses seres vivos corretamente para entender sua fisiologia, ecologia e biodiversidade no Pantanal\u201d, ressalta Santos.<\/p>\n<p>As cianobact\u00e9rias conseguem fazer seu pr\u00f3prio alimento por meio da fotoss\u00edntese, assim como as plantas, usando o g\u00e1s carb\u00f4nico (CO<sub>2<\/sub>) do ar, a \u00e1gua e a luz solar. Por serem ricas em prote\u00ednas, vitaminas e minerais, s\u00e3o o principal ingrediente de um suplemento alimentar chamado espirulina. O estudo de Santos indica as condi\u00e7\u00f5es ideais de temperatura, alcalinidade e concentra\u00e7\u00e3o de nitrog\u00eanio na \u00e1gua para a reprodu\u00e7\u00e3o do microrganismo. \u201cIsso pode contribuir para aumentar a produtividade do suplemento\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Metano subaqu\u00e1tico<br \/>\n<\/strong>Em seu est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), na Esalq-USP, Cotta participou de um estudo sobre outro aspecto das salinas do Pantanal: a emiss\u00e3o de gases. Usando c\u00e2maras que flutuam na \u00e1gua e aprisionam o ar emitido pela lagoa, a equipe coletou amostras de tr\u00eas salinas, com diferentes graus de alcalinidade, e verificou que a lagoa com flora\u00e7\u00e3o de cianobact\u00e9rias, a mais alcalina, emitiu uma grande quantidade de metano (CH<sub>4<\/sub>), como descrito em artigo publicado na edi\u00e7\u00e3o de outubro da revista\u00a0<em>Science of the Total Environment<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cQuando morrem, as cianobact\u00e9rias s\u00e3o decompostas por microrganismos que consomem o oxig\u00eanio dispon\u00edvel na \u00e1gua\u201d, conta Cotta. \u201cOs restos da decomposi\u00e7\u00e3o se depositam nos sedimentos do fundo, onde h\u00e1 maior preval\u00eancia de microrganismos que produzem CH<sub>4<\/sub>\u00a0a partir desse material.\u201d O CH<sub>4\u00a0<\/sub>\u00e9 um g\u00e1s importante para o efeito estufa, pois seu potencial de aquecimento global (GWP) \u00e9 28 vezes maior do que o do CO<sub>2<\/sub>.<\/p>\n<p>\u201cNa esta\u00e7\u00e3o seca, a quantidade de CH<sub>4\u00a0<\/sub>emitida nessas lagoas \u00e9 bem maior do que em outros ambientes aqu\u00e1ticos, onde as flora\u00e7\u00f5es de cianobact\u00e9rias s\u00e3o menos frequentes\u201d, compara o engenheiro ambiental Thierry Pellegrinetti, pesquisador em est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado no Cena e primeiro autor do artigo. Os resultados indicam que as emiss\u00f5es s\u00e3o cerca de 38 vezes maiores do que as do mar B\u00e1ltico, por exemplo. Na esta\u00e7\u00e3o chuvosa, por\u00e9m, a libera\u00e7\u00e3o de CH<sub>4\u00a0<\/sub>cai 90%.<\/p>\n<p>A salina de alcalinidade m\u00e9dia, que tinha a \u00e1gua turva, sem flora\u00e7\u00e3o de cianobact\u00e9rias ou plantas aqu\u00e1ticas, n\u00e3o emitiu CH<sub>4\u00a0<\/sub>durante o per\u00edodo de coleta, mas liberou tra\u00e7os de \u00f3xido nitroso (N\u2082O), que \u00e9 importante para o efeito estufa (GWP 273 vezes maior que o do CO<sub>2<\/sub>) e \u00e9 conhecido como g\u00e1s hilariante por seu efeito sedativo quando inalado em concentra\u00e7\u00f5es mais altas.<\/p>\n<p>J\u00e1 a salina de baixa alcalinidade, que tinha \u00e1guas cristalinas e plantas aqu\u00e1ticas, tamb\u00e9m produziu CH<sub>4\u00a0<\/sub>em decorr\u00eancia da decomposi\u00e7\u00e3o dos vegetais, mas em menor quantidade. Apesar de emitir maiores quantidades de CH<sub>4<\/sub>, as lagoas com abund\u00e2ncia de cianobact\u00e9rias emitiram pouco CO<sub>2<\/sub>, em parte porque as cianobact\u00e9rias absorvem carbono quando crescem e se multiplicam, compensando as emiss\u00f5es.<\/p>\n<p>Os pesquisadores verificaram que a quantidade de cianobact\u00e9rias nos lagos aumentou entre 2000 e 2020, com base em imagens de sat\u00e9lite que detectam a clorofila, que aparece na forma de pigmentos verdes nos microrganismos. Pellegrinetti sugere que isso tenha acontecido porque a quantidade de \u00e1gua diminuiu. \u201cAt\u00e9 certo ponto, o aumento na concentra\u00e7\u00e3o de nutrientes na \u00e1gua favorece a prolifera\u00e7\u00e3o dos microrganismos\u201d, observa. \u201cDepois disso, come\u00e7a a prejudic\u00e1-los.\u201d<\/p>\n<p>Cotta ressalta que a amostra \u00e9 pequena para concluir que as lagoas salinas s\u00e3o grandes emissoras de CH<sub>4<\/sub>\u00a0e lembra que as \u00e1reas alagadas, como o Pantanal, guardam muito carbono no solo, nas plantas e nos sedimentos das lagoas, que acumulam mat\u00e9ria org\u00e2nica. Secas longas e prolongadas poderiam, assim, contribuir para agravar as mudan\u00e7as do clima. \u201cPreservar o Pantanal pode contribuir para a diminui\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de gases do efeito estufa\u201d, conclui.<\/p>\n<p class=\"bibliografia separador-bibliografia\"><strong>Projetos<br \/>\n1.<\/strong>\u00a0Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e impactos ambientais em \u00e1reas alagadas (wetlands) do Pantanal (Brasil): Quantifica\u00e7\u00e3o, fatores de controle e previs\u00e3o em longo prazo (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/95770\/mudancas-climaticas-e-impactos-ambientais-em-areas-alagadas-wetlands-do-pantanal-brasil-quantificaca\/?q=16\/14227-5\">n<\/a><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/95770\/mudancas-climaticas-e-impactos-ambientais-em-areas-alagadas-wetlands-do-pantanal-brasil-quantificaca\/?q=16\/14227-5\"><sup>o<\/sup><\/a><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/95770\/mudancas-climaticas-e-impactos-ambientais-em-areas-alagadas-wetlands-do-pantanal-brasil-quantificaca\/?q=16\/14227-5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a016\/14227-5<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade<\/strong>\u00a0Projeto Tem\u00e1tico;\u00a0<strong>Programa<\/strong>\u00a0PFPMCG;\u00a0<strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0Adolpho Jos\u00e9 Melfi (USP);\u00a0<strong>Investimento<\/strong>\u00a0R$ 5.226.935,12.<br \/>\n<strong>2.<\/strong>\u00a0Estudos de desenvolvimento, moleculares e do potencial biotecnol\u00f3gico em cepas de cianobact\u00e9rias provenientes de lagoas salinas do Pantanal, da Nhecol\u00e2ndia, MS, Brasil:\u00a0<em>Anabaenopsis elenkinii<\/em>\u00a0(Nostocales) e\u00a0<em>Arthrospira platensis\u00a0<\/em>(Oscillatoriales) (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/108890\/estudos-de-desenvolvimento-moleculares-e-do-potencial-biotecnologico-em-cepas-de-cianobacterias-pro\/?q=09\/51655-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">n\u00ba 09\/51655-1<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade<\/strong>\u00a0Bolsa de Doutorado;\u00a0<strong>Pesquisadora respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0C\u00e9lia Leite Sant\u2019Anna (Instituto de Bot\u00e2nica);\u00a0<strong>Bolsista<\/strong>\u00a0Kleber Renan de Souza Santos;<strong>\u00a0Investimento<\/strong>\u00a0R$ 136.700,67.<\/p>\n<p class=\"bibliografia\"><strong>Artigos cient\u00edficos<br \/>\n<\/strong>SANTOS, K. R. S.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S2179-975X10323\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ecophysiological investigation of the cyanobacteria\u00a0<\/a><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S2179-975X10323\"><em>Anabaenopsis elenkinii\u00a0<\/em><\/a><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S2179-975X10323\">and\u00a0<\/a><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S2179-975X10323\"><em>Limnospira platensis<\/em><\/a><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S2179-975X10323\">: Predominant species in saline\/alkaline lakes of the Pantanal Wetland<\/a>.\u00a0<strong>Acta Limnologica Brasiliensia.\u00a0<\/strong>v. 36, e22. On-line. 19 jul. 2024.<br \/>\nSANTOS, K. R. S.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/journals\/environmental-science\/articles\/10.3389\/fenvs.2023.1204787\/full\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Molecular, morphological and ecological studies of\u00a0<em>Limnospira platensis<\/em>\u00a0(Cyanobacteria), from saline and alkaline lakes, Pantanal biome, Brazil<\/a>.\u00a0<strong>Frontiers in Environmental Science.\u00a0<\/strong>v. 11, 1204787. 25 set. 2023.<br \/>\nPELLEGRINETTI, T. A.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.scitotenv.2024.174646\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The role of microbial communities in biogeochemical cycles and greenhouse gas emissions within tropical soda lakes<\/a>.\u00a0<strong>Science of the Total Environment.\u00a0<\/strong>v. 947, 174646. 15 out. 2024.<\/p>\n<p>Fonte: pesquisafapesp<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas lagoas de \u00e1gua salgada do Pantanal, conhecidas popularmente como salinas, entre os poucos seres vivos que sobrevivem \u00e0 alta alcalinidade da \u00e1gua est\u00e3o os microrganismos, em especial as microsc\u00f3picas cianobact\u00e9rias que se multiplicam na superf\u00edcie formando uma espessa camada verde \u2013 a chamada flora\u00e7\u00e3o. Segundo estudo publicado em julho na revista Acta Limnologica Brasiliensia,\u00a0o aumento de temperatura em testes de laborat\u00f3rio diminuiu a reprodu\u00e7\u00e3o das duas principais esp\u00e9cies que vivem na regi\u00e3o,\u00a0Anabaenopsis elenkinii\u00a0e\u00a0Limnospira platensis. \u201cCaso o mesmo efeito ocorra na natureza, o aumento de temperatura no contexto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas poder\u00e1 inibir a reprodu\u00e7\u00e3o das cianobact\u00e9rias e a sua flora\u00e7\u00e3o\u201d, deduz o bi\u00f3logo Kleber Santos, do Centro Universit\u00e1rio Leonardo da Vinci (Uniasselvi), em Santa Catarina, primeiro autor do estudo. Santos coletou 27 amostras de \u00e1gua de oito salinas da Nhecol\u00e2ndia, regi\u00e3o do Pantanal quase do tamanho do estado de Alagoas, com cerca de 26 mil quil\u00f4metros quadrados (km2), no munic\u00edpio de Corumb\u00e1, Mato Grosso do Sul. Nos testes em laborat\u00f3rio, a velocidade de reprodu\u00e7\u00e3o de\u00a0A. elenkinii\u00a0atingiu seu m\u00e1ximo a 25 graus Celsius (oC), caiu pela metade a 30\u00a0oC e praticamente parou a 35\u00a0oC, enquanto\u00a0L. platensis\u00a0quase n\u00e3o se reproduziu mais a partir de 30\u00a0oC. As duas esp\u00e9cies formaram estruturas chamadas acinetos ou hormog\u00f4nios, que resistem a condi\u00e7\u00f5es adversas \u2013 por exemplo, em per\u00edodos de seca intensa \u2013 e brotam apenas quando elas se tornam mais favor\u00e1veis. O resultado surpreendeu Santos. \u201cH\u00e1 poucos estudos desse tipo feitos com cianobact\u00e9rias de regi\u00f5es tropicais e, geralmente, o aumento de temperatura estimula a sua reprodu\u00e7\u00e3o\u201d, diz ele. O pesquisador sugere que diferen\u00e7as gen\u00e9ticas da cepa do Pantanal podem influenciar esse comportamento, mas ressalta que mais estudos s\u00e3o necess\u00e1rios para entender suas causas. A microbiologista Simone Cotta, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de S\u00e3o Paulo (Esalq-USP), em Piracicaba, considera improv\u00e1vel que o aumento de temperatura diminua as flora\u00e7\u00f5es. Ela observa que h\u00e1 um consenso entre pesquisadores de que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tendem a promover a multiplica\u00e7\u00e3o de cianobact\u00e9rias e ressalta que experimentos de laborat\u00f3rio, feitos em condi\u00e7\u00f5es controladas, n\u00e3o explicam o que acontece na natureza. \u201cA ocorr\u00eancia de flora\u00e7\u00f5es \u00e9 um fen\u00f4meno multifatorial que ainda n\u00e3o \u00e9 plenamente compreendido\u201d, ressalta Cotta. Entre os efeitos j\u00e1 documentados em uma diversidade de estudos est\u00e1 a presen\u00e7a de nutrientes, como nitrog\u00eanio e f\u00f3sforo, que quando em excesso estimulam a flora\u00e7\u00e3o. Terra de lagoas Na Nhecol\u00e2ndia, cujo nome homenageia um fazendeiro conhecido como Nheco, que viveu na regi\u00e3o no s\u00e9culo XIX, existem cerca de 1.500 salinas \u2013 ou lagoas alcalinas \u2013 de um total de cerca de 10 mil lagoas, a maioria de \u00e1gua doce. \u00c9 o local com a maior extens\u00e3o desses corpos d\u2019\u00e1gua do mundo, com cerca de um a cada 3 hectares (ha), \u00e1rea equivalente a tr\u00eas campos de futebol. Com uma m\u00e9dia de 2 metros (m) de profundidade e 1 km de di\u00e2metro, as salinas s\u00e3o abastecidas pelas \u00e1guas das chuvas e t\u00eam contato limitado com o len\u00e7ol fre\u00e1tico, ficam um pouco mais elevadas que as lagoas de \u00e1gua doce e s\u00e3o rodeadas por montes de 3 a 5 m de altura cobertos por vegeta\u00e7\u00e3o. Por isso, ficam isoladas do fluxo de \u00e1gua doce que alaga a plan\u00edcie. Al\u00e9m disso, seu fundo \u00e9 formado por uma camada endurecida de solo, que n\u00e3o deixa a \u00e1gua doce se infiltrar. A evapora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua parada favorece o ac\u00famulo de sais como s\u00f3dio, pot\u00e1ssio, magn\u00e9sio e c\u00e1lcio, que aumentam a alcalinidade do ambiente \u2013 por n\u00e3o conter o sal de cozinha (cloreto de s\u00f3dio) a \u00e1gua n\u00e3o tem sabor salgado. Como elas s\u00e3o as \u00faltimas lagoas a secar em per\u00edodos de estiagem prolongada, s\u00e3o importantes para a sobreviv\u00eancia dos animais, servindo de fonte de \u00e1gua e sais minerais. Santos observou que\u00a0A. elenkinii,\u00a0de flora\u00e7\u00e3o verde, \u00e9 a mais comum e a primeira a colonizar esses lagos, onde come\u00e7a a fixar nitrog\u00eanio do ar. Quando o n\u00edvel de nitrog\u00eanio dissolvido na \u00e1gua fica muito alto, ela \u00e9 substitu\u00edda por\u00a0Limnospira platensis,\u00a0de flora\u00e7\u00e3o verde-azulada, antes chamada\u00a0Arthrospira platensis \u2013\u00a0a esp\u00e9cie foi renomeada por Santos em 2023, em estudo publicado na revista\u00a0Frontiers in Environmental Science,\u00a0ao verificar que o organismo tinha mais afinidade com outro g\u00eanero.\u00a0\u201c\u00c9 fundamental identificar esses seres vivos corretamente para entender sua fisiologia, ecologia e biodiversidade no Pantanal\u201d, ressalta Santos. As cianobact\u00e9rias conseguem fazer seu pr\u00f3prio alimento por meio da fotoss\u00edntese, assim como as plantas, usando o g\u00e1s carb\u00f4nico (CO2) do ar, a \u00e1gua e a luz solar. Por serem ricas em prote\u00ednas, vitaminas e minerais, s\u00e3o o principal ingrediente de um suplemento alimentar chamado espirulina. O estudo de Santos indica as condi\u00e7\u00f5es ideais de temperatura, alcalinidade e concentra\u00e7\u00e3o de nitrog\u00eanio na \u00e1gua para a reprodu\u00e7\u00e3o do microrganismo. \u201cIsso pode contribuir para aumentar a produtividade do suplemento\u201d, afirma. Metano subaqu\u00e1tico Em seu est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), na Esalq-USP, Cotta participou de um estudo sobre outro aspecto das salinas do Pantanal: a emiss\u00e3o de gases. Usando c\u00e2maras que flutuam na \u00e1gua e aprisionam o ar emitido pela lagoa, a equipe coletou amostras de tr\u00eas salinas, com diferentes graus de alcalinidade, e verificou que a lagoa com flora\u00e7\u00e3o de cianobact\u00e9rias, a mais alcalina, emitiu uma grande quantidade de metano (CH4), como descrito em artigo publicado na edi\u00e7\u00e3o de outubro da revista\u00a0Science of the Total Environment. \u201cQuando morrem, as cianobact\u00e9rias s\u00e3o decompostas por microrganismos que consomem o oxig\u00eanio dispon\u00edvel na \u00e1gua\u201d, conta Cotta. \u201cOs restos da decomposi\u00e7\u00e3o se depositam nos sedimentos do fundo, onde h\u00e1 maior preval\u00eancia de microrganismos que produzem CH4\u00a0a partir desse material.\u201d O CH4\u00a0\u00e9 um g\u00e1s importante para o efeito estufa, pois seu potencial de aquecimento global (GWP) \u00e9 28 vezes maior do que o do CO2. \u201cNa esta\u00e7\u00e3o seca, a quantidade de CH4\u00a0emitida nessas lagoas \u00e9 bem maior do que em outros ambientes aqu\u00e1ticos, onde as flora\u00e7\u00f5es de cianobact\u00e9rias s\u00e3o menos frequentes\u201d, compara o engenheiro ambiental Thierry Pellegrinetti, pesquisador em est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado no Cena e primeiro autor do artigo. Os resultados indicam que as emiss\u00f5es s\u00e3o cerca de 38 vezes maiores do que as do mar B\u00e1ltico,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6028,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[7,310],"tags":[70,198,316,216],"class_list":["post-6027","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","category-sustentabilidade-noticias","tag-educacao-juridica","tag-meio-ambiente","tag-mudancas-de-clima","tag-sustentabilidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6027","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6027"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6027\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6028"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}