{"id":6019,"date":"2024-11-05T10:28:24","date_gmt":"2024-11-05T13:28:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.professorvladmirsilveira.com.br\/?p=6019"},"modified":"2024-11-05T10:28:24","modified_gmt":"2024-11-05T13:28:24","slug":"ibge-da-vida-marinha-estudo-inedito-sobre-a-biodiversidade-no-mar-revela-potenciais-impactos-da-mudanca-do-clima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/2024\/11\/05\/ibge-da-vida-marinha-estudo-inedito-sobre-a-biodiversidade-no-mar-revela-potenciais-impactos-da-mudanca-do-clima\/","title":{"rendered":"&#8220;IBGE da vida marinha&#8221;: estudo in\u00e9dito sobre a biodiversidade no mar revela potenciais impactos da mudan\u00e7a do clima"},"content":{"rendered":"<p>As comunidades de cost\u00f5es rochosos s\u00e3o impactadas pela varia\u00e7\u00e3o na temperatura do oceano. \u00c9 o que aponta um artigo publicado no peri\u00f3dico\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0141113624003076\"><i>Marine Environmental Research<\/i><\/a>\u00a0em julho de 2024,\u00a0resultado de um projeto de pesquisa que demonstra como os efeitos da temperatura do oceano, da for\u00e7a das ondas e do volume de \u00e1gua doce que chega ao mar exercem sobre a biodiversidade marinha.<\/p>\n<p>O estudo \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cIBGE da vida marinha\u201d, por avaliar a varia\u00e7\u00e3o na abund\u00e2ncia e no tamanho de organismos em cost\u00f5es rochosos ao longo da costa sudeste do pa\u00eds e permitir fazer a previs\u00e3o dos impactos que as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas podem trazer para esses organismos, segundo os autores do artigo &#8211; um grupo de\u00a0pesquisadores da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), em parceria com a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), o Centro de Biologia Marinha da Universidade de S\u00e3o Paulo (CEBIMar\/USP) e com pesquisadores ligados a institui\u00e7\u00f5es de pesquisa da China e do Reino Unido, contando com apoio do CNPq e da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp).<\/p>\n<p>In\u00e9dito, o projeto foi o primeiro desenvolvido na costa brasileira a avaliar a biodiversidade do entremar\u00e9s em cost\u00f5es rochosos, em uma escala espacial de mais de 800 km, de Itanha\u00e9m, em S\u00e3o Paulo, a Arma\u00e7\u00e3o dos B\u00fazios, no estado do Rio de Janeiro. Durante o estudo, os pesquisadores coletaram informa\u00e7\u00f5es sobre os locais onde est\u00e3o distribu\u00eddas as v\u00e1rias esp\u00e9cies, em quais quantidades se encontram e os respectivos tamanhos. Esta caracter\u00edstica \u00e9 relevante porque determina a influ\u00eancia da esp\u00e9cie na comunidade, seja pela competi\u00e7\u00e3o por espa\u00e7o ou por sua a\u00e7\u00e3o de preda\u00e7\u00e3o \u2013 carn\u00edvora ou herb\u00edvora &#8211; na rela\u00e7\u00e3o com outras esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>A equipe cruzou todas as informa\u00e7\u00f5es reunidas com dados ambientais de temperatura do mar, grau de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s ondas e influ\u00eancia de \u00e1gua doce proveniente de rios, trabalhando em \u00a0v\u00e1rias etapas. Na primeira delas, campanhas de campo intensivas coletaram os dados em 62 cost\u00f5es rochosos em um espa\u00e7o de poucos meses, garantindo que todos as informa\u00e7\u00f5es estivessem sob influ\u00eancia de um mesmo regime de esta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Campanhas de coleta de campo ajudaram a avaliar a preda\u00e7\u00e3o entre as esp\u00e9cies principais. Em outra etapa, a equipe realizou experimentos em 18 cost\u00f5es rochosos no gradiente latitudinal pesquisado, para testar como fatores das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem influenciar a preda\u00e7\u00e3o entre esses animais. Essa etapa envolveu uma for\u00e7a tarefa, encarregada de instalar e monitorar gaiolas nas rochas na zona costeira.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do trabalho de campo e an\u00e1lises dos organismos em laborat\u00f3rio, os pesquisadores realizaram etapas de sensoriamento remoto e modelagem, para obter dados de monitoramento de sat\u00e9lite sobre a temperatura do oceano, a descarga de \u00e1gua doce por rios na zona costeira e a for\u00e7a de impacto das ondas. As informa\u00e7\u00f5es ajudaram a equipe a entender como cada um desses fatores varia, em uma escala de menos de dez quil\u00f4metros ao longo da costa. A pesquisa em campo e laborat\u00f3rio durou quatro anos e envolveu uma equipe de vinte pesquisadores e estudantes, resultando em diferentes publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. Nos \u00faltimos dois anos, artigos cient\u00edficos derivados do projeto come\u00e7aram demonstrar como a\u00a0 biodiversidade interage nesse sistema.<\/p>\n<p><b>Por que estudar a influ\u00eancia das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nos organismos marinhos<\/b><\/p>\n<p>Os pesquisadores estudaram como as popula\u00e7\u00f5es de organismos marinhos variam em ambiente natural dentro de um gradiente de temperatura do oceano que varia naturalmente em cerca de 3 graus Celsius entre os locais com \u00e1guas mais quentes, como \u00e9 o caso da regi\u00e3o da Baixada Santista at\u00e9 Ilha Grande, no Rio de Janeiro, e as \u00e1guas mais frias da regi\u00e3o dos Lagos, tamb\u00e9m no Rio de Janeiro. O entendimento de como esse gradiente de temperatura influencia no ambiente natural permite extrapolar os potenciais impactos do aumento da temperatura do oceano &#8211; que, no \u00faltimo ano, por exemplo, tem estado de 1 a 2 graus Celsius acima da m\u00e9dia no Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>No gradiente de temperatura do oceano na costa sudeste brasileira, os pesquisadores buscaram cost\u00f5es rochosos com diferentes graus de impacto das ondas, desde \u00e1reas mais abrigadas, com pouca for\u00e7a das ondas, at\u00e9 as com alta energia de ondas. Tornou-se poss\u00edvel avaliar, assim, como o aumento das ressacas no mar, que geram ondas mais fortes, pode influenciar na biodiversidade. Al\u00e9m da temperatura do oceano, a equipe avaliou o efeito local da for\u00e7a das ondas. Por fim, ao longo de toda a regi\u00e3o do estudo, os pesquisadores buscaram cost\u00f5es rochosos pr\u00f3ximos e distantes da foz de rios, para avaliar como o aumento das chuvas e a descarga de \u00e1gua doce no oceano podem influenciar a biodiversidade.<\/p>\n<p>A pesquisa envolveu a biodiversidade do entremar\u00e9s de cost\u00f5es rochosos como modelo ideal por diferentes raz\u00f5es. Em primeiro lugar, as esp\u00e9cies do entremar\u00e9s \u2013 \u00e1rea localizada entre as mar\u00e9s baixa e alta \u2013 habitam um ambiente altamente estressante, ficando submersas e expostas ao ar v\u00e1rias vezes ao dia, conforme a mar\u00e9 sobe e desce. Dessa forma, s\u00e3o organismos adaptados a fatores de estresse e excelentes modelos de estudo sobre como os impactos da mudan\u00e7a do clima podem afetar suas popula\u00e7\u00f5es. Em segundo lugar, essas esp\u00e9cies enfrentam grandes varia\u00e7\u00f5es de temperatura de umidade e de salinidade e t\u00eam sido mundialmente afetadas pelas ondas de calor atmosf\u00e9rico, sendo bons indicadores de impactos na zona costeira. A superf\u00edcie das rochas, por exemplo, pode atingir mais de 50 graus Celsius no ver\u00e3o, ficando t\u00e3o quente quanto o asfalto das cidades.<\/p>\n<p>Para os pesquisadores, um dos desafios do projeto era entender os padr\u00f5es ecol\u00f3gicos naturais dentro de um gradiente de varia\u00e7\u00e3o que permite extrapolar previs\u00f5es para os cen\u00e1rios futuros de mudan\u00e7as de clima. \u201cCompreender o sistema natural \u00e9 nossa maior for\u00e7a para buscar as solu\u00e7\u00f5es para o futuro. N\u00f3s focamos em avaliar diferentes fatores ambientais em conjunto, desde a rugosidade das rochas at\u00e9 a temperatura do oceano\u201d, afirma o bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e professor do Instituto do Mar da Unifesp,\u00a0<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4170381439518486\">Ronaldo Christofoletti<\/a>, coordenador do projeto e do grupo de pesquisa. Ele observa que a temperatura do oceano, o impacto das ondas e o aporte de \u00e1gua doce s\u00e3o fatores que mostram altera\u00e7\u00f5es dos seus padr\u00f5es pela mudan\u00e7a do clima. \u201cLogo, se eles alteram, ir\u00e3o impactar a biodiversidade e muitas vezes sequer conhecemos quais eram os padr\u00f5es antes da mudan\u00e7a do clima\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Chistofoletti observa, ademais, que a compreens\u00e3o dos impactos da mudan\u00e7a do clima na biodiversidade \u00e9 uma tarefa complexa, por conta de in\u00fameras vari\u00e1veis. \u201cImpactos como o aumento das chuvas intensas, da temperatura do oceano, da frequ\u00eancia de ressacas na costa e das ondas de calor atmosf\u00e9rico s\u00e3o desafiadores dada a larga escala espacial que estes eventos ocorrem\u201d, diz. O pesquisador ressalta a dificuldade para se manipular esses fatores e, com isso, gerar experimentos controlados, e lembra tamb\u00e9m que seu impacto nem sempre \u00e9 pontual no tempo, mas reflete em processos de crescimento, alimenta\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o que ocorrem ao longo de semanas, meses e anos.<\/p>\n<p>Estudos de campo como estes permitem aos pesquisadores compreender como se d\u00e3o os processos de forma integrada. \u201cVamos imaginar o cen\u00e1rio a partir de um mexilh\u00e3o, e como todos os resultados se somam. As mudan\u00e7as do clima t\u00eam intensificado os per\u00edodos de chuva extrema, que por sua vez resultam em mais \u00e1gua doce chegando ao mar pelos rios. Em um cost\u00e3o rochoso com influ\u00eancia de \u00e1gua doce, a abund\u00e2ncia desses mexilh\u00f5es tende a aumentar. Para esse mesmo cost\u00e3o rochoso, os dados de temperatura do oceano mostram que, com o aumento da temperatura do mar, os animais devem ficar 25% menores. Logo, temos mais mexilh\u00f5es menores o que gera uma competi\u00e7\u00e3o por espa\u00e7o e por alimenta\u00e7\u00e3o entre eles\u201d, explica.<\/p>\n<p>O pesquisador lembra, ainda, que, se esse mesmo cost\u00e3o rochoso estiver em uma \u00e1rea de maior influ\u00eancia das ondas, o caracol\u00a0<i>Stramonita brasiliensis,\u00a0<\/i>tamb\u00e9m conhecido como saquarit\u00e1<i>,\u00a0<\/i>predador natural do mexilh\u00e3o, ter\u00e1 menos for\u00e7a predat\u00f3ria, devido ao aumento do impacto das ondas. \u201cEm um cost\u00e3o rochoso pr\u00f3ximo a rio, que traz mais \u00e1gua das chuvas intensas, sob exposi\u00e7\u00e3o das ondas que aumentam na ressaca e em um oceano mais quente, teremos aumento de mexilh\u00f5es e diminui\u00e7\u00e3o da preda\u00e7\u00e3o sobre eles, o que faz com esse animal se torne mais abundante, domine o espa\u00e7o e altere toda a biodiversidade natural do ambiente\u201d, completa o pesquisador. Christofoletti salienta que sua explica\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas um exemplo a partir da perspectiva de uma \u00fanica esp\u00e9cie e que \u00e9 preciso se entender os impactos em toda a comunidade. \u201cEsses processos n\u00e3o ocorrem da noite para o dia. S\u00e3o processos integrados ao longo do tempo, igual ao nosso desenvolvimento como ser humano, por isso, precisamos de estudos integrados que permitam entender o que est\u00e1 ocorrendo\u201d, conclui.<\/p>\n<p><b>Os principais resultados<\/b><\/p>\n<p>Os dados publicados no artigo da\u00a0<i>Marine Environmental Resarch\u00a0<\/i>mostram que a maior parte das esp\u00e9cies avaliadas tende a ser menor nas \u00e1reas de \u00e1gua mais quente, como \u00e9 o caso da regi\u00e3o da Baixada Santista at\u00e9 o litoral sul do Rio de Janeiro, do que em \u00e1reas de \u00e1guas mais frias, como a regi\u00e3o dos Lagos, tamb\u00e9m no Rio de Janeiro. Na regi\u00e3o de \u00e1guas mais frias, os registros indicaram que as esp\u00e9cies filtradoras \u2013 cracas e mexilh\u00f5es \u2013 s\u00e3o de 25% a 35% maiores, enquanto a esp\u00e9cie carn\u00edvora chega a ser 50% maior, enquanto as esp\u00e9cies herb\u00edvoras s\u00e3o de 100% a 130% maiores. No per\u00edodo e no gradiente latitudinal na regi\u00e3o de estudo, a varia\u00e7\u00e3o da temperatura do oceano era de cerca de 3 graus Celsius entre as regi\u00f5es mais quentes e frias. O estudo tamb\u00e9m mostrou que a influ\u00eancia do aporte de \u00e1gua doce teve efeitos vari\u00e1veis. Nas \u00e1reas com maior influ\u00eancia de rios, por exemplo, as cracas foram menores, enquanto os mexilh\u00f5es foram mais abundantes. O dado indica que as esp\u00e9cies t\u00eam toler\u00e2ncia diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 salinidade.<\/p>\n<p>De acordo com os pesquisadores, a diferen\u00e7a de tamanho das esp\u00e9cies pode ocorrer por duas raz\u00f5es. Em primeiro lugar, em \u00e1guas mais quentes os animais tendem a alcan\u00e7ar a maturidade sexual mais cedo. Logo, investem energia em crescimento por menos tempo e ficam menores e depois investem mais energia na reprodu\u00e7\u00e3o. Em segundo lugar, a regi\u00e3o dos Lagos \u00e9 influenciada pelo processo de ressurg\u00eancia, que traz nutrientes do fundo do oceano e enriquecem a \u00e1gua, podendo, assim, trazer mais energia na cadeia tr\u00f3fica. Embora a alimenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse fator limitante em qualquer regi\u00e3o, pois sempre h\u00e1 presas dispon\u00edveis para os animais se alimentarem, o fato de se ter \u00e1guas naturalmente mais ricas em nutrientes pode ter influ\u00eancia em uma maior taxa de crescimento.<\/p>\n<p>Segundo os resultados da pesquisa, as esp\u00e9cies avaliadas tamb\u00e9m tendem a ser mais abundantes em \u00e1reas sob maior influ\u00eancia de ondas. H\u00e1 aumento da abund\u00e2ncia de cracas em at\u00e9 50%, com triplica\u00e7\u00e3o do n\u00famero de mexilh\u00f5es e da popula\u00e7\u00e3o do predador, o caracol\u00a0<i>Stramonita brasiliensis<\/i>. O fato \u00e9 resultado do aumento na chegada de nutrientes, alimento e larvas por meio das ondas. O experimento realizado nos cost\u00f5es rochosos, para testar a influ\u00eancia desses fatores na preda\u00e7\u00e3o, mostrou que, em locais com maior influ\u00eancia de ondas, a preda\u00e7\u00e3o pelo caracol\u00a0<i>Stramonita brasiliensis<\/i>\u00a0sobre cracas \u00e9 reduzida. O impacto das ondas atrapalha os predadores, que podem ser removidos das rochas. A preda\u00e7\u00e3o \u00e9 mais relevante em locais com menor influ\u00eancia de ondas, onde as presas s\u00e3o encontradas em menores quantidades e os predadores n\u00e3o s\u00e3o atrapalhados pelas ondas.<\/p>\n<p>De acordo com o professor do Centro de Bioci\u00eancias e Biotecnologia, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) e primeiro autor do artigo,\u00a0<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6383192984652602\">C\u00e9sar Cordeiro<\/a>, os resultados da pesquisa mostram uma poss\u00edvel altera\u00e7\u00e3o na biomassa dos organismos marinhos no ambiente, o que pode gerar um desbalan\u00e7o de energia na cadeia tr\u00f3fica e impactar outros organismos que se alimentam deles, caso se considere os cen\u00e1rios previstos da mudan\u00e7a do clima para o futuro pr\u00f3ximo, que apontam para o aumento da temperatura do oceano. \u201cTemos agora a possibilidade de monitorar o que ir\u00e1 ocorrer. Se apenas no \u00faltimo ano a temperatura m\u00e9dia do oceano j\u00e1 subiu quase 0,5 graus Celsius e na costa brasileira o Oceano Atl\u00e2ntico estava entre 1 a 2 graus Celsius acima da m\u00e9dia, podemos ter processos reprodutivos e de crescimento j\u00e1 sendo alterados que v\u00e3o reverter em impactos na biodiversidade nos pr\u00f3ximos anos\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Para o pesquisador e bolsista de p\u00f3s-doutorado j\u00fanior do CNPq\u00a0<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6271009643657143\">Andr\u00e9 Pardal<\/a>, que liderou os estudos de modelagem e cadeia tr\u00f3fica no projeto, entender a preda\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento chave para a compreens\u00e3o da din\u00e2mica dos processos que regulam a biodiversidade. \u201cEm um cen\u00e1rio de aumento do n\u00edvel do mar e da frequ\u00eancia de eventos extremos, nossos resultados mostram que os organismos podem se tornar mais abundantes, por\u00e9m com maiores desafios para se alimentar, o que pode gerar um desequil\u00edbrio ecol\u00f3gico. Isto \u00e9 ainda mais forte somado ao aumento da temperatura do oceano, onde eles tamb\u00e9m tendem a se tornar menores em tamanho, configurando uma completa altera\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es naturais do ambiente\u201d, diz.<\/p>\n<p>Estudos como o do artigo publicado demonstram que esp\u00e9cies costeiras est\u00e3o intimamente ligadas \u00e0s caracter\u00edsticas do oceano. Os pesquisadores agora trabalham nas etapas seguintes do projeto, para aprofundar o entendimento de como esses processos clim\u00e1ticos e da biodiversidade afetam e s\u00e3o impactados por diferentes a\u00e7\u00f5es da nossa sociedade. \u201cAs altera\u00e7\u00f5es no oceano ligadas a atividades humanas, como urbaniza\u00e7\u00e3o costeira, polui\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, certamente impactar\u00e3o as esp\u00e9cies costeiras e, potencialmente, os benef\u00edcios que elas trazem para n\u00f3s\u201d, afirma Pardal. \u201cInvestir em ci\u00eancia e monitoramento passa a ser ainda mais essencial, para que possamos entender as altera\u00e7\u00f5es que v\u00e3o ocorrer nos pr\u00f3ximos anos e d\u00e9cadas e como isso pode influenciar na cadeia de pesca, na economia, na sa\u00fade do oceano e que, de todas as formas, impactam a nossa sociedade\u201d, salienta o professor C\u00e9sar Cordeiro.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/cnpq\/pt-br\">Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico<\/a><\/p>\n<div class=\"govbr-busca-header\">\n<div id=\"govbr-busca-input\">\n<div class=\"aa-Autocomplete\" role=\"combobox\" aria-expanded=\"false\" aria-haspopup=\"listbox\" aria-labelledby=\"searchtext-label\">\n<form class=\"aa-Form\" role=\"search\" action=\"https:\/\/www.gov.br\/cnpq\/pt-br\/assuntos\/noticias\/cnpq-em-acao\/estudo-inedito-sobre-a-biodiversidade-marinha-mostra-os-potenciais-impactos-da-mudanca-do-clima\" novalidate=\"\">\n<div class=\"aa-InputWrapperPrefix\"><\/div>\n<\/form>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As comunidades de cost\u00f5es rochosos s\u00e3o impactadas pela varia\u00e7\u00e3o na temperatura do oceano. \u00c9 o que aponta um artigo publicado no peri\u00f3dico\u00a0Marine Environmental Research\u00a0em julho de 2024,\u00a0resultado de um projeto de pesquisa que demonstra como os efeitos da temperatura do oceano, da for\u00e7a das ondas e do volume de \u00e1gua doce que chega ao mar exercem sobre a biodiversidade marinha. O estudo \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cIBGE da vida marinha\u201d, por avaliar a varia\u00e7\u00e3o na abund\u00e2ncia e no tamanho de organismos em cost\u00f5es rochosos ao longo da costa sudeste do pa\u00eds e permitir fazer a previs\u00e3o dos impactos que as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas podem trazer para esses organismos, segundo os autores do artigo &#8211; um grupo de\u00a0pesquisadores da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), em parceria com a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), o Centro de Biologia Marinha da Universidade de S\u00e3o Paulo (CEBIMar\/USP) e com pesquisadores ligados a institui\u00e7\u00f5es de pesquisa da China e do Reino Unido, contando com apoio do CNPq e da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp). In\u00e9dito, o projeto foi o primeiro desenvolvido na costa brasileira a avaliar a biodiversidade do entremar\u00e9s em cost\u00f5es rochosos, em uma escala espacial de mais de 800 km, de Itanha\u00e9m, em S\u00e3o Paulo, a Arma\u00e7\u00e3o dos B\u00fazios, no estado do Rio de Janeiro. Durante o estudo, os pesquisadores coletaram informa\u00e7\u00f5es sobre os locais onde est\u00e3o distribu\u00eddas as v\u00e1rias esp\u00e9cies, em quais quantidades se encontram e os respectivos tamanhos. Esta caracter\u00edstica \u00e9 relevante porque determina a influ\u00eancia da esp\u00e9cie na comunidade, seja pela competi\u00e7\u00e3o por espa\u00e7o ou por sua a\u00e7\u00e3o de preda\u00e7\u00e3o \u2013 carn\u00edvora ou herb\u00edvora &#8211; na rela\u00e7\u00e3o com outras esp\u00e9cies. A equipe cruzou todas as informa\u00e7\u00f5es reunidas com dados ambientais de temperatura do mar, grau de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s ondas e influ\u00eancia de \u00e1gua doce proveniente de rios, trabalhando em \u00a0v\u00e1rias etapas. Na primeira delas, campanhas de campo intensivas coletaram os dados em 62 cost\u00f5es rochosos em um espa\u00e7o de poucos meses, garantindo que todos as informa\u00e7\u00f5es estivessem sob influ\u00eancia de um mesmo regime de esta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Campanhas de coleta de campo ajudaram a avaliar a preda\u00e7\u00e3o entre as esp\u00e9cies principais. Em outra etapa, a equipe realizou experimentos em 18 cost\u00f5es rochosos no gradiente latitudinal pesquisado, para testar como fatores das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem influenciar a preda\u00e7\u00e3o entre esses animais. Essa etapa envolveu uma for\u00e7a tarefa, encarregada de instalar e monitorar gaiolas nas rochas na zona costeira. Al\u00e9m do trabalho de campo e an\u00e1lises dos organismos em laborat\u00f3rio, os pesquisadores realizaram etapas de sensoriamento remoto e modelagem, para obter dados de monitoramento de sat\u00e9lite sobre a temperatura do oceano, a descarga de \u00e1gua doce por rios na zona costeira e a for\u00e7a de impacto das ondas. As informa\u00e7\u00f5es ajudaram a equipe a entender como cada um desses fatores varia, em uma escala de menos de dez quil\u00f4metros ao longo da costa. A pesquisa em campo e laborat\u00f3rio durou quatro anos e envolveu uma equipe de vinte pesquisadores e estudantes, resultando em diferentes publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. Nos \u00faltimos dois anos, artigos cient\u00edficos derivados do projeto come\u00e7aram demonstrar como a\u00a0 biodiversidade interage nesse sistema. Por que estudar a influ\u00eancia das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nos organismos marinhos Os pesquisadores estudaram como as popula\u00e7\u00f5es de organismos marinhos variam em ambiente natural dentro de um gradiente de temperatura do oceano que varia naturalmente em cerca de 3 graus Celsius entre os locais com \u00e1guas mais quentes, como \u00e9 o caso da regi\u00e3o da Baixada Santista at\u00e9 Ilha Grande, no Rio de Janeiro, e as \u00e1guas mais frias da regi\u00e3o dos Lagos, tamb\u00e9m no Rio de Janeiro. O entendimento de como esse gradiente de temperatura influencia no ambiente natural permite extrapolar os potenciais impactos do aumento da temperatura do oceano &#8211; que, no \u00faltimo ano, por exemplo, tem estado de 1 a 2 graus Celsius acima da m\u00e9dia no Atl\u00e2ntico Sul. No gradiente de temperatura do oceano na costa sudeste brasileira, os pesquisadores buscaram cost\u00f5es rochosos com diferentes graus de impacto das ondas, desde \u00e1reas mais abrigadas, com pouca for\u00e7a das ondas, at\u00e9 as com alta energia de ondas. Tornou-se poss\u00edvel avaliar, assim, como o aumento das ressacas no mar, que geram ondas mais fortes, pode influenciar na biodiversidade. Al\u00e9m da temperatura do oceano, a equipe avaliou o efeito local da for\u00e7a das ondas. Por fim, ao longo de toda a regi\u00e3o do estudo, os pesquisadores buscaram cost\u00f5es rochosos pr\u00f3ximos e distantes da foz de rios, para avaliar como o aumento das chuvas e a descarga de \u00e1gua doce no oceano podem influenciar a biodiversidade. A pesquisa envolveu a biodiversidade do entremar\u00e9s de cost\u00f5es rochosos como modelo ideal por diferentes raz\u00f5es. Em primeiro lugar, as esp\u00e9cies do entremar\u00e9s \u2013 \u00e1rea localizada entre as mar\u00e9s baixa e alta \u2013 habitam um ambiente altamente estressante, ficando submersas e expostas ao ar v\u00e1rias vezes ao dia, conforme a mar\u00e9 sobe e desce. Dessa forma, s\u00e3o organismos adaptados a fatores de estresse e excelentes modelos de estudo sobre como os impactos da mudan\u00e7a do clima podem afetar suas popula\u00e7\u00f5es. Em segundo lugar, essas esp\u00e9cies enfrentam grandes varia\u00e7\u00f5es de temperatura de umidade e de salinidade e t\u00eam sido mundialmente afetadas pelas ondas de calor atmosf\u00e9rico, sendo bons indicadores de impactos na zona costeira. A superf\u00edcie das rochas, por exemplo, pode atingir mais de 50 graus Celsius no ver\u00e3o, ficando t\u00e3o quente quanto o asfalto das cidades. Para os pesquisadores, um dos desafios do projeto era entender os padr\u00f5es ecol\u00f3gicos naturais dentro de um gradiente de varia\u00e7\u00e3o que permite extrapolar previs\u00f5es para os cen\u00e1rios futuros de mudan\u00e7as de clima. \u201cCompreender o sistema natural \u00e9 nossa maior for\u00e7a para buscar as solu\u00e7\u00f5es para o futuro. N\u00f3s focamos em avaliar diferentes fatores ambientais em conjunto, desde a rugosidade das rochas at\u00e9 a temperatura do oceano\u201d, afirma o bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e professor do Instituto do Mar da Unifesp,\u00a0Ronaldo Christofoletti, coordenador do projeto e do grupo de pesquisa. 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