{"id":5756,"date":"2024-04-22T10:25:36","date_gmt":"2024-04-22T13:25:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.professorvladmirsilveira.com.br\/?p=5756"},"modified":"2024-04-22T10:25:36","modified_gmt":"2024-04-22T13:25:36","slug":"crise-na-pos-graduacao-evasao-de-pesquisadores-prejudica-ciencia-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/2024\/04\/22\/crise-na-pos-graduacao-evasao-de-pesquisadores-prejudica-ciencia-nacional\/","title":{"rendered":"Crise na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o: evas\u00e3o de pesquisadores prejudica ci\u00eancia nacional"},"content":{"rendered":"<p>Baixo incentivo financeiro, falta de direitos e m\u00e1 absor\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho provocam abandono dos programas, o que impacta a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica do pa\u00eds<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Por J\u00falia Giusti*<\/strong>\u00a0\u2014 As condi\u00e7\u00f5es de estudo e trabalho de pesquisadores da\u00a0p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o stricto sensu no Brasil, o que inclui mestrado e doutorado,\u00a0s\u00e3o prec\u00e1rias e estimulam a evas\u00e3o. \u00c9 o que apontam especialistas, que avaliam que os principais fatores\u00a0que levam ao abandono dos programas\u00a0s\u00e3o\u00a0valores insuficientes das bolsas de pesquisa, falta de direitos sociais, como aposentadoria, e m\u00e1 absor\u00e7\u00e3o desses profissionais no mercado de trabalho ap\u00f3s a conclus\u00e3o dos cursos.<\/p>\n<p class=\"texto\">Esse cen\u00e1rio de evas\u00e3o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o\u00a0gera impactos na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do pa\u00eds, que, segundo dados da Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes), \u00e9 realizada por mestrandos e doutorandos em 90% dos casos.<\/p>\n<p class=\"texto\">O assunto foi debatido na Comiss\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o do Senado, em mar\u00e7o, a pedido da senadora Teresa Leit\u00e3o (PT-PE), que destaca a necessidade de &#8220;investimento financeiro, pol\u00edticas de aprimoramento da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e melhores condi\u00e7\u00f5es de estudos para execu\u00e7\u00e3o da pesquisa&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">Em 2023, as\u00a0bolsas de mestrado e doutorado da Capes e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) foram reajustadas. Os valores, que estavam congelados desde 2013, sofreram aumento de 40%. Com isso, bolsas de mestrado passaram de R$ 1.500 para R$ 2.100, enquanto as de doutorado subiram de R$ 2.200 para R$ 3.100.<\/p>\n<p class=\"texto\">O or\u00e7amento da Capes em 2023 foi 50% maior do que em 2022. No primeiro ano do atual governo, a ag\u00eancia investiu R$ 5,4 bilh\u00f5es na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e em programas de forma\u00e7\u00e3o de professores. No ano anterior, os valores totalizaram R$ 3,6 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"texto\">Para o presidente do F\u00f3rum Nacional de Pr\u00f3-reitores de Pesquisa e P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o das Institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior Brasileiras (Foprop), Charles Santos, os reajustes foram indispens\u00e1veis para a valoriza\u00e7\u00e3o das pesquisas, mas s\u00e3o insuficientes para garantir atratividade de novos talentos. &#8220;Uma d\u00e9cada sem qualquer reajuste de bolsas era uma condi\u00e7\u00e3o inaceit\u00e1vel e precisava ser urgentemente resolvida sob o risco de a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o perder boa parte da atra\u00e7\u00e3o que ainda tinha junto aos graduandos e graduandas no Brasil. Ainda assim, os novos valores n\u00e3o cobrem todas as perdas inflacion\u00e1rias entre 2013 e 2023, e uma pol\u00edtica de reajuste peri\u00f3dico precisa ser considerada&#8221;, afirma.<\/p>\n<p class=\"texto\">Lu\u00eds Henrique Bel\u00e9m, de 25 anos, \u00e9 mestrando em ci\u00eancias sociais na Universidade de Bras\u00edlia (UnB) desde 2022, pesquisando pol\u00edtica social. Tendo as bolsas como \u00fanica fonte de renda, ele fala que os reajustes n\u00e3o s\u00e3o suficientes para garantir a subsist\u00eancia dos pesquisadores: &#8220;O aumento n\u00e3o cobre\u00a0o custo de vida que temos nos estados brasileiros, o que impacta de forma dr\u00e1stica nas nossas condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho enquanto pesquisadores&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">Alexandra Martins, 28 anos, acabou de defender sua tese de doutorado em ecologia na UnB. Ela ingressou na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em 2017 para o mestrado e conta que a quest\u00e3o das bolsas pesou mais durante a pandemia: &#8220;A pesquisa n\u00e3o pode parar, mas na pandemia, como ia fazer se eu ou algu\u00e9m da minha fam\u00edlia ficasse doente?&#8221;. Nesse per\u00edodo, a Capes prorrogou bolsas em at\u00e9 seis meses, mas Alexandra n\u00e3o teve o pedido atendido a tempo e passou dois meses sem receber. &#8220;A minha sorte \u00e9 que morava com a minha m\u00e3e, ent\u00e3o isso aliviava um pouco, mas quando a gente fica sem a bolsa, \u00e9 mais dif\u00edcil para conseguir defender o projeto&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">Segundo Denise de Carvalho,\u00a0presidente da Capes, o interesse em cursar\u00a0mestrado e doutorado diminuiu nos \u00faltimos anos, o que foi motivado pelo baixo valor das bolsas antes dos reajustes e tamb\u00e9m pelos cortes em ci\u00eancia e tecnologia entre 2019 e 2022, que chegaram a uma redu\u00e7\u00e3o de 87%.\u00a0Com aumento das bolsas e o fim da pandemia de covid-19, por\u00e9m, o ingresso na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o voltou a crescer.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;Em vez de continuarem estudando, as pessoas entraram no mercado de trabalho menos qualificadas por falta de esperan\u00e7a de que teriam financiamento para continuar os seus estudos&#8221;, explica. &#8220;Agora, os pesquisadores ingressam com a perspectiva de que podem continuar se qualificando profissionalmente&#8221;.<\/p>\n<h3>Direitos<\/h3>\n<p class=\"texto\">A aus\u00eancia de direitos sociais de mestrandos e doutorandos \u00e9\u00a0outro fator que desmotiva pesquisadores, que n\u00e3o possuem garantias trabalhistas, como v\u00ednculo com a previd\u00eancia social. O diretor cient\u00edfico do CNPq, Olival Freire, pontua que existe uma &#8220;inseguran\u00e7a jur\u00eddica&#8221; na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, pois a legisla\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o permite\u00a0o recurso de contrata\u00e7\u00e3o para contagem do tempo de contribui\u00e7\u00e3o, durante o desenvolvimento da pesquisa, para aposentadoria.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;Na melhor das hip\u00f3teses, um p\u00f3s-graduando passa dois anos no mestrado e quatro no doutorado. Da\u00ed, ele entrar\u00e1 no mercado de trabalho aos 30 anos, enquanto muitos trabalhadores j\u00e1 est\u00e3o contribuindo com a Previd\u00eancia. Ent\u00e3o, nosso atual sistema de bolsas atrasa muito a contagem do tempo para a fins de aposentadoria de um p\u00f3s-graduando&#8221;, diz.<\/p>\n<p class=\"texto\">Para a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos P\u00f3s-graduandos (ANPG), a seguridade social\u00a0de estudantes deve ser garantida. Vinicius Soares, presidente da associa\u00e7\u00e3o, defende uma &#8220;cesta de direitos b\u00e1sicos&#8221; para os p\u00f3s-graduandos. Para ele, &#8220;nada mais justo do que o pr\u00f3prio Estado brasileiro reconhecer a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como uma condi\u00e7\u00e3o laboral&#8221;, mas as garantias tamb\u00e9m devem incluir direitos como assist\u00eancia estudantil e acesso ao restaurante universit\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"texto\">Caroline Ara\u00fajo, de 27 anos, come\u00e7ou agora o doutorado em medicina tropical na UnB. Para ela, n\u00e3o possuir plano de carreira \u00e9 &#8220;desesperador, \u00e9 como jogar seu trabalho no lixo, em rela\u00e7\u00e3o a uma futura aposentadoria&#8221;. Ela tamb\u00e9m se preocupa com oportunidades no mercado de trabalho: &#8220;Eu n\u00e3o sei se vou conseguir um trabalho, o mercado est\u00e1 superfaturado e muitas empresas preferem pagar por m\u00e3o de obra barata e n\u00e3o qualificada&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">Apesar das\u00a0dificuldades,\u00a0ela pretende seguir na carreira acad\u00eamica, pois seu sonho \u00e9 ser pesquisadora. &#8220;Cabe a n\u00f3s lutar por nossos direitos. O governo deve valorizar o nosso trabalho, porque n\u00e3o recebemos o que merecemos e n\u00e3o temos direitos trabalhistas&#8221;, afirma.<\/p>\n<h3>Evas\u00e3o<\/h3>\n<p class=\"texto\">Um dos principais motivos para evas\u00e3o\u00a0na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 para ingresso no mercado de trabalho. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep), quase 60% dos alunos de gradua\u00e7\u00e3o de universidades p\u00fablicas e privadas desistem do curso. Embora n\u00e3o se tenha dados consolidados para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, entidades acreditam que o cen\u00e1rio seja parecido.<\/p>\n<p class=\"texto\">A presidente da Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC), Helena Nader, comenta que a desvaloriza\u00e7\u00e3o do mestrado e doutorado no Brasil \u00e9 decorrente da import\u00e2ncia dada \u00e0 ci\u00eancia no pa\u00eds: \u201cEm outras regi\u00f5es do mundo, como nos Estados Unidos e na Europa, eles acreditam na relev\u00e2ncia da ci\u00eancia, o que se d\u00e1 atrav\u00e9s de investimentos. No Brasil, a ci\u00eancia ainda \u00e9 vista como gasto\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto\">Para o mestrando Lu\u00eds Henrique Bel\u00e9m, o baixo financiamento da ci\u00eancia afeta mais quem est\u00e1 no in\u00edcio da carreira acad\u00eamica. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 valoriza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e tamb\u00e9m do Estado como um todo, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao financiamento das nossas pesquisas e \u00e0s possibilidades de ofertas concretas para que a gente possa se dedicar exclusivamente \u00e0 pesquisa&#8221;, relata.<\/p>\n<p class=\"texto\">A presidente da Capes concorda e alerta: a evas\u00e3o no mestrado acarreta uma baixa forma\u00e7\u00e3o de doutores no Brasil, em compara\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses que investem em ci\u00eancia e tecnologia. Denise comenta que, entre os pa\u00edses da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), que re\u00fane 38 das economias mais avan\u00e7adas do mundo, a m\u00e9dia de forma\u00e7\u00e3o de doutores \u00e9 de 1%. No Brasil, o \u00edndice \u00e9 cinco vezes menor, apenas 0,2%. Com a falta de incentivos, h\u00e1 uma &#8220;fuga de c\u00e9rebros&#8221; para fora do pa\u00eds, em uma tentativa de conseguir melhores oportunidades.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;Quando n\u00f3s olhamos para os pa\u00edses desenvolvidos, aqueles que t\u00eam o maior Produto Interno Bruto, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que eles t\u00eam maior n\u00famero percentual de doutores. Esses pa\u00edses geram e exportam alta tecnologia por interm\u00e9dio das pesquisas&#8221;, diz. Ela tamb\u00e9m destaca que o pa\u00eds deve investir nos seus profissionais para garantir o desenvolvimento frente a outras economias: &#8220;A forma\u00e7\u00e3o de mais doutores \u00e9 fundamental para o desenvolvimento industrial&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">Para tentar reverter a tend\u00eancia, o governo federal lan\u00e7ou, neste ano, o programa Conhecimento Brasil, de repatria\u00e7\u00e3o de talentos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos. A ideia \u00e9 trazer de volta brasileiros que realizaram sua p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no exterior e n\u00e3o retornaram ao pa\u00eds, para trabalharem em Institutos de Ci\u00eancia e Tecnologia (ICTs) e empresas nacionais. O foco do programa \u00e9, justamente, o desenvolvimento industrial em \u00e1reas priorit\u00e1rias e na redu\u00e7\u00e3o de assimetrias do Sistema Nacional de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"texto\">O CNPq lan\u00e7ar\u00e1 duas chamadas p\u00fablicas no primeiro trimestre de 2024 para contrata\u00e7\u00e3o de at\u00e9 380 projetos com vig\u00eancia de 48 meses, prorrog\u00e1veis por mais 12 meses. Ser\u00e3o concedidas bolsas mensais de R$ 13 mil para doutores e R$ 10 mil para mestres, al\u00e9m de outros direitos trabalhistas e recursos em capital e custeio para manuten\u00e7\u00e3o do projeto no valor de at\u00e9 R$ 400 mil ou visitas a centros de excel\u00eancia no exterior no valor de at\u00e9 R$ 120 mil.<\/p>\n<h3>Equidade<\/h3>\n<p class=\"texto\">Entre os estudantes da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e docentes do ensino superior, existe uma predomin\u00e2ncia de brancos. A conclus\u00e3o \u00e9 de um levantamento feito em 2021 pelo professor Luiz Mello, da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG), com base em dados da Capes e do Inep. De acordo com o estudo, quase 47% dos p\u00f3s-graduandos em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas se autodeclaram brancos, contra pouco mais de 10% de negros, amarelos e ind\u00edgenas. A maioria \u00e9 de mulheres, ocupando cerca de 54% do total de matriculados. Na doc\u00eancia, 53% s\u00e3o brancos, com predomin\u00e2ncia de homens.<\/p>\n<p class=\"texto\">Dados da revista Fapesp deste ano mostram que houve avan\u00e7os na equidade de g\u00eanero na doc\u00eancia nos \u00faltimos 12 anos, mas o n\u00famero de mulheres em bolsas de produtividade do CNPq, concedida a pesquisadores que se destacam em suas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o, ainda \u00e9 muito baixo. Segundo uma pesquisa do Parent in Science, movimento que busca igualdade na ci\u00eancia para m\u00e3es e pais, elas s\u00e3o menos de 36% dos bolsistas.<\/p>\n<p class=\"texto\">A conselheira da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) L\u00facia Melo afirma que a for\u00e7a de trabalho nas carreiras de ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o pode ser ampliada com o emprego de mais mulheres nesses postos: &#8220;A gente tem um contingente feminino importante na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o ou crescente em algumas \u00e1reas, mas o emprego das mulheres na pesquisa e no desenvolvimento das empresas ainda \u00e9 pequeno&#8221;. Para ela, \u00e9 fundamental criar condi\u00e7\u00f5es para atra\u00ed-las para os campos cient\u00edficos, &#8220;respeitando a trajet\u00f3ria feminina dentro do seu papel na sociedade&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\"><i>Fonte: Eu Estudante\u00a0<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Baixo incentivo financeiro, falta de direitos e m\u00e1 absor\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho provocam abandono dos programas, o que impacta a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica do pa\u00eds Por J\u00falia Giusti*\u00a0\u2014 As condi\u00e7\u00f5es de estudo e trabalho de pesquisadores da\u00a0p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o stricto sensu no Brasil, o que inclui mestrado e doutorado,\u00a0s\u00e3o prec\u00e1rias e estimulam a evas\u00e3o. \u00c9 o que apontam especialistas, que avaliam que os principais fatores\u00a0que levam ao abandono dos programas\u00a0s\u00e3o\u00a0valores insuficientes das bolsas de pesquisa, falta de direitos sociais, como aposentadoria, e m\u00e1 absor\u00e7\u00e3o desses profissionais no mercado de trabalho ap\u00f3s a conclus\u00e3o dos cursos. Esse cen\u00e1rio de evas\u00e3o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o\u00a0gera impactos na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do pa\u00eds, que, segundo dados da Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes), \u00e9 realizada por mestrandos e doutorandos em 90% dos casos. O assunto foi debatido na Comiss\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o do Senado, em mar\u00e7o, a pedido da senadora Teresa Leit\u00e3o (PT-PE), que destaca a necessidade de &#8220;investimento financeiro, pol\u00edticas de aprimoramento da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e melhores condi\u00e7\u00f5es de estudos para execu\u00e7\u00e3o da pesquisa&#8221;. Em 2023, as\u00a0bolsas de mestrado e doutorado da Capes e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) foram reajustadas. Os valores, que estavam congelados desde 2013, sofreram aumento de 40%. Com isso, bolsas de mestrado passaram de R$ 1.500 para R$ 2.100, enquanto as de doutorado subiram de R$ 2.200 para R$ 3.100. O or\u00e7amento da Capes em 2023 foi 50% maior do que em 2022. No primeiro ano do atual governo, a ag\u00eancia investiu R$ 5,4 bilh\u00f5es na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e em programas de forma\u00e7\u00e3o de professores. No ano anterior, os valores totalizaram R$ 3,6 bilh\u00f5es. Para o presidente do F\u00f3rum Nacional de Pr\u00f3-reitores de Pesquisa e P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o das Institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior Brasileiras (Foprop), Charles Santos, os reajustes foram indispens\u00e1veis para a valoriza\u00e7\u00e3o das pesquisas, mas s\u00e3o insuficientes para garantir atratividade de novos talentos. &#8220;Uma d\u00e9cada sem qualquer reajuste de bolsas era uma condi\u00e7\u00e3o inaceit\u00e1vel e precisava ser urgentemente resolvida sob o risco de a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o perder boa parte da atra\u00e7\u00e3o que ainda tinha junto aos graduandos e graduandas no Brasil. Ainda assim, os novos valores n\u00e3o cobrem todas as perdas inflacion\u00e1rias entre 2013 e 2023, e uma pol\u00edtica de reajuste peri\u00f3dico precisa ser considerada&#8221;, afirma. Lu\u00eds Henrique Bel\u00e9m, de 25 anos, \u00e9 mestrando em ci\u00eancias sociais na Universidade de Bras\u00edlia (UnB) desde 2022, pesquisando pol\u00edtica social. Tendo as bolsas como \u00fanica fonte de renda, ele fala que os reajustes n\u00e3o s\u00e3o suficientes para garantir a subsist\u00eancia dos pesquisadores: &#8220;O aumento n\u00e3o cobre\u00a0o custo de vida que temos nos estados brasileiros, o que impacta de forma dr\u00e1stica nas nossas condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho enquanto pesquisadores&#8221;. Alexandra Martins, 28 anos, acabou de defender sua tese de doutorado em ecologia na UnB. Ela ingressou na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em 2017 para o mestrado e conta que a quest\u00e3o das bolsas pesou mais durante a pandemia: &#8220;A pesquisa n\u00e3o pode parar, mas na pandemia, como ia fazer se eu ou algu\u00e9m da minha fam\u00edlia ficasse doente?&#8221;. Nesse per\u00edodo, a Capes prorrogou bolsas em at\u00e9 seis meses, mas Alexandra n\u00e3o teve o pedido atendido a tempo e passou dois meses sem receber. &#8220;A minha sorte \u00e9 que morava com a minha m\u00e3e, ent\u00e3o isso aliviava um pouco, mas quando a gente fica sem a bolsa, \u00e9 mais dif\u00edcil para conseguir defender o projeto&#8221;. Segundo Denise de Carvalho,\u00a0presidente da Capes, o interesse em cursar\u00a0mestrado e doutorado diminuiu nos \u00faltimos anos, o que foi motivado pelo baixo valor das bolsas antes dos reajustes e tamb\u00e9m pelos cortes em ci\u00eancia e tecnologia entre 2019 e 2022, que chegaram a uma redu\u00e7\u00e3o de 87%.\u00a0Com aumento das bolsas e o fim da pandemia de covid-19, por\u00e9m, o ingresso na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o voltou a crescer. &#8220;Em vez de continuarem estudando, as pessoas entraram no mercado de trabalho menos qualificadas por falta de esperan\u00e7a de que teriam financiamento para continuar os seus estudos&#8221;, explica. &#8220;Agora, os pesquisadores ingressam com a perspectiva de que podem continuar se qualificando profissionalmente&#8221;. Direitos A aus\u00eancia de direitos sociais de mestrandos e doutorandos \u00e9\u00a0outro fator que desmotiva pesquisadores, que n\u00e3o possuem garantias trabalhistas, como v\u00ednculo com a previd\u00eancia social. O diretor cient\u00edfico do CNPq, Olival Freire, pontua que existe uma &#8220;inseguran\u00e7a jur\u00eddica&#8221; na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, pois a legisla\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o permite\u00a0o recurso de contrata\u00e7\u00e3o para contagem do tempo de contribui\u00e7\u00e3o, durante o desenvolvimento da pesquisa, para aposentadoria. &#8220;Na melhor das hip\u00f3teses, um p\u00f3s-graduando passa dois anos no mestrado e quatro no doutorado. Da\u00ed, ele entrar\u00e1 no mercado de trabalho aos 30 anos, enquanto muitos trabalhadores j\u00e1 est\u00e3o contribuindo com a Previd\u00eancia. Ent\u00e3o, nosso atual sistema de bolsas atrasa muito a contagem do tempo para a fins de aposentadoria de um p\u00f3s-graduando&#8221;, diz. Para a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos P\u00f3s-graduandos (ANPG), a seguridade social\u00a0de estudantes deve ser garantida. Vinicius Soares, presidente da associa\u00e7\u00e3o, defende uma &#8220;cesta de direitos b\u00e1sicos&#8221; para os p\u00f3s-graduandos. Para ele, &#8220;nada mais justo do que o pr\u00f3prio Estado brasileiro reconhecer a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como uma condi\u00e7\u00e3o laboral&#8221;, mas as garantias tamb\u00e9m devem incluir direitos como assist\u00eancia estudantil e acesso ao restaurante universit\u00e1rio. Caroline Ara\u00fajo, de 27 anos, come\u00e7ou agora o doutorado em medicina tropical na UnB. Para ela, n\u00e3o possuir plano de carreira \u00e9 &#8220;desesperador, \u00e9 como jogar seu trabalho no lixo, em rela\u00e7\u00e3o a uma futura aposentadoria&#8221;. Ela tamb\u00e9m se preocupa com oportunidades no mercado de trabalho: &#8220;Eu n\u00e3o sei se vou conseguir um trabalho, o mercado est\u00e1 superfaturado e muitas empresas preferem pagar por m\u00e3o de obra barata e n\u00e3o qualificada&#8221;. Apesar das\u00a0dificuldades,\u00a0ela pretende seguir na carreira acad\u00eamica, pois seu sonho \u00e9 ser pesquisadora. &#8220;Cabe a n\u00f3s lutar por nossos direitos. O governo deve valorizar o nosso trabalho, porque n\u00e3o recebemos o que merecemos e n\u00e3o temos direitos trabalhistas&#8221;, afirma. Evas\u00e3o Um dos principais motivos para evas\u00e3o\u00a0na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 para ingresso no mercado de trabalho. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep), quase 60% dos alunos de gradua\u00e7\u00e3o de universidades p\u00fablicas e privadas desistem do curso. 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