{"id":5208,"date":"2022-10-04T13:35:56","date_gmt":"2022-10-04T16:35:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.professorvladmirsilveira.com.br\/\/?p=5208"},"modified":"2022-10-04T13:35:56","modified_gmt":"2022-10-04T16:35:56","slug":"filmes-retratam-problemas-urgentes-da-amazonia-pelo-olhar-da-populacao-afetada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/2022\/10\/04\/filmes-retratam-problemas-urgentes-da-amazonia-pelo-olhar-da-populacao-afetada\/","title":{"rendered":"Filmes retratam problemas urgentes da Amaz\u00f4nia pelo olhar da popula\u00e7\u00e3o afetada"},"content":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Ziegler | Ag\u00eancia FAPESP \u2013\u00a0No territ\u00f3rio Munduruku, pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Jacareacanga (PA), h\u00e1 uma demanda fora do comum por cadeiras de rodas infantis. Uma investiga\u00e7\u00e3o m\u00e9dica concluiu que isso se d\u00e1 pelas altas taxas de merc\u00fario no sangue dos moradores da regi\u00e3o, que levam a problemas neurol\u00f3gicos irrevers\u00edveis em adultos, idosos e tamb\u00e9m nas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>O merc\u00fario lan\u00e7ado ilegalmente no rio Tapaj\u00f3s para o garimpo de ouro vem contaminando os rios, os peixes e tamb\u00e9m o povo Munduruku. O conjunto de sintomas neurol\u00f3gicos apresentados pelos ind\u00edgenas tem o nome de doen\u00e7a de Minamata, uma cidade de pescadores no Jap\u00e3o que, em 1950, teve sua ba\u00eda contaminada por uma f\u00e1brica de pl\u00e1stico que lan\u00e7ava merc\u00fario nas \u00e1guas. Os japoneses levaram 35 anos at\u00e9 conseguir fechar a f\u00e1brica, receber indeniza\u00e7\u00f5es e pens\u00f5es.<\/p>\n<p>As duas hist\u00f3rias s\u00e3o contadas no filme Amaz\u00f4nia, a nova Minamata?, que deve estrear agora em outubro, \u00e9 dirigido por Jorge Bodanzky e conta com a participa\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico Erik Jennings e da lideran\u00e7a ind\u00edgena e ativista ambiental Alessandra Munduruku. Em um determinado momento do document\u00e1rio, Alessandra, em manifesta\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional, diz: \u201cAs pessoas t\u00eam que saber o que est\u00e1 acontecendo e \u00e9 por isso que a gente n\u00e3o para de lutar. Voc\u00eas est\u00e3o matando os nossos filhos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTodos n\u00f3s j\u00e1 sabemos da quest\u00e3o da contamina\u00e7\u00e3o do merc\u00fario na bacia amaz\u00f4nica, mas eu n\u00e3o fazia a menor ideia da dimens\u00e3o e do desastre irrevers\u00edvel que \u00e9. O merc\u00fario ataca o sistema neurol\u00f3gico, tamb\u00e9m passa pela placenta e os beb\u00eas j\u00e1 nascem com alto \u00edndice de contamina\u00e7\u00e3o. O merc\u00fario a gente n\u00e3o v\u00ea, n\u00e3o cheira. Ele tamb\u00e9m demora a aparecer. \u00c0s vezes a pessoa mora h\u00e1 30 anos no local, est\u00e1 contaminada, mas isso n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel\u201d, disse Bodanzky, durante o primeiro semin\u00e1rio da s\u00e9rie \u201cAmaz\u00f4nia em imagem e movimento: as hist\u00f3rias do extrativismo da Amaz\u00f4nia registradas pelas lentes do document\u00e1rio nacional\u201d, promovido pela FAPESP em 15 de setembro.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie, dividida em tr\u00eas sess\u00f5es, visa debater como o extrativismo intensivo da Amaz\u00f4nia e as grandes obras de infraestrutura que o acompanham v\u00eam sendo registrados e difundidos nacional e internacionalmente por um conjunto cada vez mais robusto de filmes.<\/p>\n<p>A proposta de debate partiu de pesquisadores que integram o projeto &#8220;Depois das Hidrel\u00e9tricas: Processos sociais e ambientais que ocorrem depois da constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte, Jirau e Santo Ant\u00f4nio na Amaz\u00f4nia Brasileira&#8221;, apoiado pela FAPESP no \u00e2mbito do programa S\u00e3o Paulo Excellence Chair (SPEC).<\/p>\n<p>\u201cEstamos produzindo conhecimento sobre os impactos sociais e ambientais ap\u00f3s o processo de constru\u00e7\u00e3o das hidrel\u00e9tricas, contudo essas obras fazem parte de um processo hist\u00f3rico, muito mais amplo. A produ\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios tem tido um papel central nessa documenta\u00e7\u00e3o. E permite vivenciar atividades extrativistas hist\u00f3ricas desde a \u00e9poca da borracha at\u00e9 hoje no garimpo, levando os processos ocorridos na Amaz\u00f4nia ao conhecimento de p\u00fablicos mais amplos e inclusive contribuindo na agenda de pesquisa acad\u00eamica sobre a regi\u00e3o\u201d, disse Emilio Moran, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do projeto SPEC-FAPESP.<\/p>\n<p>Para os especialistas, a colabora\u00e7\u00e3o entre documentaristas e a popula\u00e7\u00e3o atingida pelas grandes obras na Amaz\u00f4nia \u00e9 fundamental. Para eles, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que se instale estrutura e incentive a forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos em cinema e comunica\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o para que temas da vida social de ind\u00edgenas, ribeirinhos e da regi\u00e3o amaz\u00f4nica em geral possam ser vistos de outro modo, a partir do olhar de quem vivencia os problemas.<\/p>\n<p>\u201cA Amaz\u00f4nia interessa para o mundo inteiro e, de algum modo, preenche um espa\u00e7o no imagin\u00e1rio mundial. Isso faz com que ela sofra historicamente de um certo extrativismo de imagens. H\u00e1 uma Amaz\u00f4nia imaginada presente no cinema de fic\u00e7\u00e3o. Mas existe uma dimens\u00e3o pol\u00edtica no document\u00e1rio e \u00e9 essencial que esse olhar parta tamb\u00e9m das pessoas que vivem na regi\u00e3o\u201d, disse\u00a0Gustavo Soranz, professor visitante da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA) e autor do livro Territ\u00f3rio imaginado \u2013 Imagens da Amaz\u00f4nia no cinema (Edi\u00e7\u00f5es Muiraquit\u00e3, 2012).<\/p>\n<p>Descolonizar o olhar<\/p>\n<p>Historicamente, o desenvolvimento da Amaz\u00f4nia foi pensado pelo ponto de vista do crescimento econ\u00f4mico, n\u00e3o da regi\u00e3o, mas do pa\u00eds. Esse modelo hegem\u00f4nico \u00e9 retratado em v\u00e1rios document\u00e1rios. No entanto, de acordo com especialistas, ao analisar os document\u00e1rios ao longo dos anos, \u00e9 poss\u00edvel perceber uma mudan\u00e7a na maneira de retratar ind\u00edgenas, ribeirinhos e caboclos.<\/p>\n<p>De acordo com Edna Castro, professora em\u00e9rita da UFPA\u00a0e codiretora do filme Marias da Castanha, inicialmente as imagens sobre a Amaz\u00f4nia passavam a percep\u00e7\u00e3o do homem subordinado. \u201cA subordina\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como algo fatal, que n\u00e3o se move, algo consagrado como parte da vida social na regi\u00e3o. Hoje, no entanto, temos uma produ\u00e7\u00e3o de imagem que mostra o contr\u00e1rio: \u00e9 o levante, a insurg\u00eancia que atravessa o passado colonial\u201d, disse.<\/p>\n<p>Castro ressalta que as dimens\u00f5es do pensamento do progresso e prosperidade do Eldorado fortalecem o processo atual de produ\u00e7\u00e3o de commodities. \u201c\u00c9 a for\u00e7a da imagem hegem\u00f4nica\u00a0da prosperidade, do agro, do min\u00e9rio, da madeira\u201d, completou.<\/p>\n<p>\u201cMuitos document\u00e1rios mostram essa invas\u00e3o da privacidade da Amaz\u00f4nia e muitos deles retomam o mito do desenvolvimento e do progresso. Inicialmente eram as a\u00e7\u00f5es civilizadoras que invadiram a regi\u00e3o e que viam a Amaz\u00f4nia como ignorante, bestializada, seja das pol\u00edticas p\u00fablicas, sobretudo dos governos militares, seja dentro do \u00e2mbito das pesquisas, empresas e de certas ag\u00eancias no caso da Sudam\u00a0[Superintend\u00eancia do Desenvolvimento da Amaz\u00f4nia]. Mas o audiovisual pode ajudar a descolonizar o olhar\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Evolu\u00e7\u00e3o do olhar em tr\u00eas filmes<\/p>\n<p>Soranz concorda com Castro. Durante o webin\u00e1rio, ele comparou tr\u00eas filmes, realizados em per\u00edodos hist\u00f3ricos diferentes, para mostrar como se deu a evolu\u00e7\u00e3o no olhar em document\u00e1rios sobre o extrativismo na Amaz\u00f4nia e como a presen\u00e7a de sujeitos sociais que vivem na regi\u00e3o foram ganhando cada vez mais protagonismo.<\/p>\n<p>Primeiro, ele analisou No Paiz das Amazonas, document\u00e1rio mudo brasileiro de 1922, dirigido por Silvino Santos. O filme rodado j\u00e1 no decl\u00ednio do ciclo da borracha tem o objetivo de mostrar modelos econ\u00f4micos para a regi\u00e3o, sendo uma esp\u00e9cie de propaganda da explora\u00e7\u00e3o de produtos como o fumo, castanha, peixes e outros.<\/p>\n<p>\u201cMarco inaugural do document\u00e1rio sobre a Amaz\u00f4nia, o projeto foi financiado pelo comerciante JG Ara\u00fajo, que explorava os insumos da floresta. \u00c9, portanto, um filme de viagem, que vai subindo o rio Negro, demonstrando todo o potencial econ\u00f4mico dos insumos naturais. E como que o sujeito social aparece? Com remiss\u00e3o do olhar para a c\u00e2mera, uma imagem que denota certa rela\u00e7\u00e3o afetuosa ou amistosa entre o sujeito que filma e o que \u00e9 filmado. Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 sobre eles, ainda n\u00e3o tem as hist\u00f3rias de vida. Trata-se de um invent\u00e1rio das possibilidades econ\u00f4micas a partir dos insumos naturais que podem ser extra\u00eddos da floresta\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>J\u00e1 em Marias da Castanha, de Edna Castro e Simone Raskin (1987), o foco \u00e9 o trabalho de beneficiamento da castanha no Par\u00e1. \u201cO interessante nesse filme \u00e9 que come\u00e7amos a ouvir as hist\u00f3rias de vida dessas mulheres. Come\u00e7a a adentrar no universo pessoal, que s\u00e3o apresentadas como pessoas que t\u00eam sonhos, desejo, luta\u201d, disse.<\/p>\n<p>O filme narra ainda as dificuldades do deslocamento do interior para a capital, como \u00e9 ser l\u00edder de fam\u00edlia e cuidar sozinhas dos filhos. \u201cOs relatos apresentam toda essa dimens\u00e3o social que est\u00e1 colocada no trabalho pelo regime de beneficiamento da castanha, no extrativismo vegetal. O foco n\u00e3o \u00e9 o extrativismo, mas quem s\u00e3o esses sujeitos que trabalham no extrativismo. Isso est\u00e1 em sintonia com o document\u00e1rio brasileiro nos anos 1980 de dar a voz e permitir conhecer novos sujeitos sociais\u201d, explicou.<\/p>\n<p>O terceiro document\u00e1rio analisado por Soranz \u00e9 Ant\u00f4nio e Piti, de Vincent Carelli e do diretor ind\u00edgena Ashaninka Wewito Piy\u00e3ko (2019). O filme conta a hist\u00f3ria de um casal: Ant\u00f4nio \u00e9 um Ashaninka, da aldeia Apiwtxa, no Acre, e Piti \u00e9 uma mulher n\u00e3o ind\u00edgena, filha de um soldado da borracha. \u201cMas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma hist\u00f3ria de amor, ou sobre os preconceitos e obst\u00e1culos culturais de um casal. \u00c9 um exemplo de um passo mais adiante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s hist\u00f3rias de vida, adentrando na vida privada do casal e conhecendo essas pessoas lutadoras\u201d, contou.<\/p>\n<p>Soranz destaca que o povo Ashaninka vive em uma regi\u00e3o de conflito entre posseiros e ind\u00edgenas. \u201cA partir da vida privada, o filme avan\u00e7a para a dimens\u00e3o pol\u00edtica de luta, conflito e demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas. Isso \u00e9 t\u00e3o importante para al\u00e9m dos grandes temas. Os document\u00e1rios s\u00e3o muito importantes tamb\u00e9m como gestos pol\u00edticos\u201d, disse.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie de webin\u00e1rio Amaz\u00f4nia em imagem e movimento: as hist\u00f3rias do extrativismo da Amaz\u00f4nia registradas pelas lentes do document\u00e1rio nacional \u00e9 composta por tr\u00eas encontros.<\/p>\n<p>A primeira mesa apresenta as transforma\u00e7\u00f5es da atividade extrativista na Amaz\u00f4nia e como tais transforma\u00e7\u00f5es v\u00eam sendo registradas pelo document\u00e1rio nacional.<\/p>\n<p>A segunda aborda a relev\u00e2ncia da divulga\u00e7\u00e3o, por meio de filmes, de outras vers\u00f5es da hist\u00f3ria na legitima\u00e7\u00e3o de narrativas sobre os impactos dos megaempreendimentos hidrel\u00e9tricos concretizados nas duas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 21 na Amaz\u00f4nia brasileira.<\/p>\n<p>A terceira mesa, que encerra o ciclo de webin\u00e1rios, reflete sobre as produ\u00e7\u00f5es mais recentes que alertam sobre as consequ\u00eancias do extrativismo, em especial a minera\u00e7\u00e3o, realizadas por cineastas e coletivos audiovisuais provenientes dos pr\u00f3prios territ\u00f3rios afetados.<\/p>\n<p>A \u00edntegra do primeiro semin\u00e1rio est\u00e1 dispon\u00edvel em:<\/p>\n<p>www.youtube.com\/watch?v=TbaACBwT3VM&amp;ab_channel=Ag%C3%AAnciaFAPESP<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Ziegler | Ag\u00eancia FAPESP \u2013\u00a0No territ\u00f3rio Munduruku, pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Jacareacanga (PA), h\u00e1 uma demanda fora do comum por cadeiras de rodas infantis. Uma investiga\u00e7\u00e3o m\u00e9dica concluiu que isso se d\u00e1 pelas altas taxas de merc\u00fario no sangue dos moradores da regi\u00e3o, que levam a problemas neurol\u00f3gicos irrevers\u00edveis em adultos, idosos e tamb\u00e9m nas crian\u00e7as. O merc\u00fario lan\u00e7ado ilegalmente no rio Tapaj\u00f3s para o garimpo de ouro vem contaminando os rios, os peixes e tamb\u00e9m o povo Munduruku. O conjunto de sintomas neurol\u00f3gicos apresentados pelos ind\u00edgenas tem o nome de doen\u00e7a de Minamata, uma cidade de pescadores no Jap\u00e3o que, em 1950, teve sua ba\u00eda contaminada por uma f\u00e1brica de pl\u00e1stico que lan\u00e7ava merc\u00fario nas \u00e1guas. Os japoneses levaram 35 anos at\u00e9 conseguir fechar a f\u00e1brica, receber indeniza\u00e7\u00f5es e pens\u00f5es. As duas hist\u00f3rias s\u00e3o contadas no filme Amaz\u00f4nia, a nova Minamata?, que deve estrear agora em outubro, \u00e9 dirigido por Jorge Bodanzky e conta com a participa\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico Erik Jennings e da lideran\u00e7a ind\u00edgena e ativista ambiental Alessandra Munduruku. Em um determinado momento do document\u00e1rio, Alessandra, em manifesta\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional, diz: \u201cAs pessoas t\u00eam que saber o que est\u00e1 acontecendo e \u00e9 por isso que a gente n\u00e3o para de lutar. Voc\u00eas est\u00e3o matando os nossos filhos\u201d. \u201cTodos n\u00f3s j\u00e1 sabemos da quest\u00e3o da contamina\u00e7\u00e3o do merc\u00fario na bacia amaz\u00f4nica, mas eu n\u00e3o fazia a menor ideia da dimens\u00e3o e do desastre irrevers\u00edvel que \u00e9. O merc\u00fario ataca o sistema neurol\u00f3gico, tamb\u00e9m passa pela placenta e os beb\u00eas j\u00e1 nascem com alto \u00edndice de contamina\u00e7\u00e3o. O merc\u00fario a gente n\u00e3o v\u00ea, n\u00e3o cheira. Ele tamb\u00e9m demora a aparecer. \u00c0s vezes a pessoa mora h\u00e1 30 anos no local, est\u00e1 contaminada, mas isso n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel\u201d, disse Bodanzky, durante o primeiro semin\u00e1rio da s\u00e9rie \u201cAmaz\u00f4nia em imagem e movimento: as hist\u00f3rias do extrativismo da Amaz\u00f4nia registradas pelas lentes do document\u00e1rio nacional\u201d, promovido pela FAPESP em 15 de setembro. A s\u00e9rie, dividida em tr\u00eas sess\u00f5es, visa debater como o extrativismo intensivo da Amaz\u00f4nia e as grandes obras de infraestrutura que o acompanham v\u00eam sendo registrados e difundidos nacional e internacionalmente por um conjunto cada vez mais robusto de filmes. A proposta de debate partiu de pesquisadores que integram o projeto &#8220;Depois das Hidrel\u00e9tricas: Processos sociais e ambientais que ocorrem depois da constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte, Jirau e Santo Ant\u00f4nio na Amaz\u00f4nia Brasileira&#8221;, apoiado pela FAPESP no \u00e2mbito do programa S\u00e3o Paulo Excellence Chair (SPEC). \u201cEstamos produzindo conhecimento sobre os impactos sociais e ambientais ap\u00f3s o processo de constru\u00e7\u00e3o das hidrel\u00e9tricas, contudo essas obras fazem parte de um processo hist\u00f3rico, muito mais amplo. A produ\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios tem tido um papel central nessa documenta\u00e7\u00e3o. E permite vivenciar atividades extrativistas hist\u00f3ricas desde a \u00e9poca da borracha at\u00e9 hoje no garimpo, levando os processos ocorridos na Amaz\u00f4nia ao conhecimento de p\u00fablicos mais amplos e inclusive contribuindo na agenda de pesquisa acad\u00eamica sobre a regi\u00e3o\u201d, disse Emilio Moran, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do projeto SPEC-FAPESP. Para os especialistas, a colabora\u00e7\u00e3o entre documentaristas e a popula\u00e7\u00e3o atingida pelas grandes obras na Amaz\u00f4nia \u00e9 fundamental. Para eles, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que se instale estrutura e incentive a forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos em cinema e comunica\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o para que temas da vida social de ind\u00edgenas, ribeirinhos e da regi\u00e3o amaz\u00f4nica em geral possam ser vistos de outro modo, a partir do olhar de quem vivencia os problemas. \u201cA Amaz\u00f4nia interessa para o mundo inteiro e, de algum modo, preenche um espa\u00e7o no imagin\u00e1rio mundial. Isso faz com que ela sofra historicamente de um certo extrativismo de imagens. H\u00e1 uma Amaz\u00f4nia imaginada presente no cinema de fic\u00e7\u00e3o. Mas existe uma dimens\u00e3o pol\u00edtica no document\u00e1rio e \u00e9 essencial que esse olhar parta tamb\u00e9m das pessoas que vivem na regi\u00e3o\u201d, disse\u00a0Gustavo Soranz, professor visitante da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA) e autor do livro Territ\u00f3rio imaginado \u2013 Imagens da Amaz\u00f4nia no cinema (Edi\u00e7\u00f5es Muiraquit\u00e3, 2012). Descolonizar o olhar Historicamente, o desenvolvimento da Amaz\u00f4nia foi pensado pelo ponto de vista do crescimento econ\u00f4mico, n\u00e3o da regi\u00e3o, mas do pa\u00eds. Esse modelo hegem\u00f4nico \u00e9 retratado em v\u00e1rios document\u00e1rios. No entanto, de acordo com especialistas, ao analisar os document\u00e1rios ao longo dos anos, \u00e9 poss\u00edvel perceber uma mudan\u00e7a na maneira de retratar ind\u00edgenas, ribeirinhos e caboclos. De acordo com Edna Castro, professora em\u00e9rita da UFPA\u00a0e codiretora do filme Marias da Castanha, inicialmente as imagens sobre a Amaz\u00f4nia passavam a percep\u00e7\u00e3o do homem subordinado. \u201cA subordina\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como algo fatal, que n\u00e3o se move, algo consagrado como parte da vida social na regi\u00e3o. Hoje, no entanto, temos uma produ\u00e7\u00e3o de imagem que mostra o contr\u00e1rio: \u00e9 o levante, a insurg\u00eancia que atravessa o passado colonial\u201d, disse. Castro ressalta que as dimens\u00f5es do pensamento do progresso e prosperidade do Eldorado fortalecem o processo atual de produ\u00e7\u00e3o de commodities. \u201c\u00c9 a for\u00e7a da imagem hegem\u00f4nica\u00a0da prosperidade, do agro, do min\u00e9rio, da madeira\u201d, completou. \u201cMuitos document\u00e1rios mostram essa invas\u00e3o da privacidade da Amaz\u00f4nia e muitos deles retomam o mito do desenvolvimento e do progresso. Inicialmente eram as a\u00e7\u00f5es civilizadoras que invadiram a regi\u00e3o e que viam a Amaz\u00f4nia como ignorante, bestializada, seja das pol\u00edticas p\u00fablicas, sobretudo dos governos militares, seja dentro do \u00e2mbito das pesquisas, empresas e de certas ag\u00eancias no caso da Sudam\u00a0[Superintend\u00eancia do Desenvolvimento da Amaz\u00f4nia]. Mas o audiovisual pode ajudar a descolonizar o olhar\u201d, afirmou. Evolu\u00e7\u00e3o do olhar em tr\u00eas filmes Soranz concorda com Castro. Durante o webin\u00e1rio, ele comparou tr\u00eas filmes, realizados em per\u00edodos hist\u00f3ricos diferentes, para mostrar como se deu a evolu\u00e7\u00e3o no olhar em document\u00e1rios sobre o extrativismo na Amaz\u00f4nia e como a presen\u00e7a de sujeitos sociais que vivem na regi\u00e3o foram ganhando cada vez mais protagonismo. Primeiro, ele analisou No Paiz das Amazonas, document\u00e1rio mudo brasileiro de 1922, dirigido por Silvino Santos. O filme rodado j\u00e1 no decl\u00ednio do ciclo da borracha tem o objetivo de mostrar modelos econ\u00f4micos para a regi\u00e3o, sendo uma esp\u00e9cie de propaganda da explora\u00e7\u00e3o de produtos como o fumo, castanha, peixes e outros. \u201cMarco<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5132,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-5208","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5208","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5208"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5208\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5132"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5208"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5208"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/clientes.jusanalytics.com.br\/professor\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}